AFINAL, QUEM ESCREVEU O QUARTO EVANGELHO?
Pe. Gilson Luiz Maia, RCI
A expressão “quarto evangelho”, tão bem acolhida por especialistas, não é utilizada apenas para sinalizar que esse livro aparece depois dos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, os quais compartilham uma estrutura narrativa e fontes comuns, denominada de tradição sinótica (sinóticos = visão de conjunto). Tal expressão destaca também o seu estilo singular e sua tradição independente. De fato, no quarto evangelho temos uma narrativa distinta, uma linguagem carregada de símbolos e uma teologia mais amadurecida com sua elevada cristologia focada na pré-existência do Verbo e na sua íntima relação com o Pai.
Dentre os vinte e sete livros que formam o Novo Testamento, cinco são atribuídos a João, filho de Zebedeu, irmão de Tiago e o mais jovem apóstolo de Jesus, identificado por muitos como o misterioso personagem do quarto evangelho, o discípulo amado. Estes cinco textos – o quarto evangelho, as três cartas de João e o livro do Apocalipse – formam o Corpus Joanino. Mas quem é o autor destes textos? É possível conhecê-lo? Para responder estas interrogações vamos recorrer à tradição patrística e verificar os escritos do Novo Testamento.
Os Padres da Igreja – Patrística
Justino, filósofo e teólogo do século II, que viveu em Éfeso, por volta do ano 160, afirma que o Apocalipse é obra de João, um dos Doze apóstolos de Jesus (cf. Diálogo com Trifão 81,4).
Irineu, Bispo de Lião, quando jovem foi discípulo do idoso Policarpo, Bispo de Esmirna, o qual por sua vez, quando jovem foi discípulo do apóstolo João. Irineu, na sua principal obra Contra as heresias, escrita por volta do ano 180, também testemunha que João, o discípulo que estava junto ao peito do Senhor, é o autor do quarto evangelho publicado em Éfeso, na Ásia (cf. Contra as heresias III,1,1). Nesta mesma obra, Irineu também informa que esse evangelista é o autor da Primeira Carta de João e do Apocalipse (cf. Contra as heresias III,16,5.8; V,26,1).
Papias, Bispo de Hierápolis no início do século II, é apresentado por Irineu e por Eusébio de Cesareia, como companheiro de Policarpo, seguidor do apóstolo João, autor de cinco livros (cf. Contra as heresias, V,33,4; História Eclesiástica, III,39,3-4). Eusébio de Cesareia, considerado o Pai da História da Igreja, também menciona Policatres, Bispo de Éfeso, que escreveu uma carta ao Papa Vitor I (186-197) defendendo a Igreja na Ásia. Policrates afirma que guardava a tradição apostólica, em especial a memória dos apóstolos Filipe e João (cf. História eclesiástica, V,24,3). Eusébio de Cesareia observa que Papias nomeia dois personagens com o nome João. Ele considera que o primeiro é o Apóstolo do Senhor e o segundo é um Presbítero, o qual provavelmente seria o autor do Apocalipse, conforme indaga Diógenes (cf. História Eclesiástica, III,39,6).
O apóstolo João nos escritos do Novo Testamento
Nos livros dos Novo Testamento não temos informação alguma de que o apóstolo João seja o autor do quarto evangelho e das cartas que lhes são atribuídas. No Apocalipse é mencionado o nome de João, mas não esclarece de modo preciso a sua identidade (Ap 1, 1.9). Um significativo número de biblistas considera que o quarto evangelho é muito bem elaborado e teologicamente profundo para ser obra de um simples pescador da Galileia. Observam ainda que o autor conhecia muito bem a cidade de Jerusalém, as questões legais e tantos detalhes da liturgia judaica. Diante desta realidade alguns estudiosos sugeriram a hipótese de se tratar de um culto sacerdote de Jerusalém. Eles observam que Policatres qualifica João como sacerdote e que Eusébio de Cesareia também falava de um presbítero em Éfeso com o mesmo nome do apóstolo.
No Novo Testamento, além do apóstolo João, um dos primeiros seguidores de Jesus (Mc 3, 17), temos com esse mesmo nome o profeta João, o Batista, precursor do Messias (Mt 3, 3; Mc 1, 2-3; Lc 1, 17) e certo João Marcos (At 12, 12.25; 13, 5.13; 15, 37). Segundo a tradição da Igreja esse João Marcos é o mesmo Marcos autor do mais antigo dos evangelhos elaborado entre os anos 65 e 70. Há ainda um tal João que pertencia ao grupo dos saduceus e membro do conselho do sumo sacerdote (At 4, 6).
Algumas passagens dos evangelhos nos informam que João era amigo de Simão e André (Mc 1, 29). Eles proibiram certa pessoa de expulsar o demônio por não pertencer ao círculo mais próximo de Jesus (Mc 9, 39; Lc 9, 49). João e seu irmão Tiago queriam colocar fogo no povoado dos samaritanos que negaram hospedagem ao Mestre e seus discípulos (Lc 9, 54). N’outro episódio a mãe de João e Tiago pediu a Jesus o lugar de honra para os seus filhos (Mt 20, 21). No livro dos Atos dos Apóstolos, João aparece várias vezes junto a Pedro na oração, na pregação do evangelho e na prisão (At 3, 1.3.4.11; 4, 13.19). Nos escritos paulinos o apóstolo João é citado apenas uma vez ao lado de Pedro e Tiago, considerados colunas da Igreja em Jerusalém (Gl 2, 9).
De acordo com uma antiga tradição, o autor do Corpus Joanino é João, filho de Zebedeu, irmão de Tiago (o Maior) e apóstolo de Jesus. Nota-se que o apóstolo João aparece várias vezes junto a Pedro e Tiago, como no momento da Transfiguração do Senhor no monte Tabor (Mt 17, 1; Mc 9, 2; Lc 9, 28). Ele também testemunha a oração e a agonia de Jesus no jardim do Getsêmani (Mt 26, 37; Mc 14, 33), e foi o primeiro do grupo dos Doze a chegar ao túmulo vazio após receber a notícia de Maria Madalena (Jo 20, 4-8).
A Escola Joanina
Atualmente um considerável número de teólogos afirmam que o quarto evangelho, as três cartas de João e o Apocalipse foram elaborados pela Escola ou Círculo Joanino, sediada na cidade de Éfeso. Era uma comunidade amadurecida na fé e trabalhava em torno da memória e dos ensinamentos – testemunho do apóstolo João.
Construída entorno da figura e as tradições associadas ao apóstolo João, a Escola ou Comunidade Joanina era composta por cristãos que cultivavam e refletiam o pensamento do discípulo amado. Mais que uma realidade física, a Escola Joanina desenvolveu, no final do primeiro século, o pensamento teológico e a produção literária denominada Corpus Joanino (o quarto evangelho, as três cartas e o livro do Apocalipse).
Inicialmente, a comunidade joanina era formada por judeu-cristãos que incluía ex-discípulos de João Batista, o profeta que atuava às margens do rio Jordão. Nesta comunidade, que também acolhia samaritanos e gentios, acentuava-se a vivência do amor fraterno – o mandamento novo. Enfatizava-se também a fé na vida eterna compreendida não como um prêmio para o futuro, mas uma realidade já garantida pelo testemunho e adesão a Jesus Cristo, o Verbo pré-existente de Deus que armou a sua tenda no meio do mundo (Jo 1, 14).
A figura central e maior autoridade da Comunidade Joanina é o discípulo amado, personagem exclusivo do quarto evangelho, que sinaliza a intimidade e fidelidade à pessoa de Jesus, o Senhor. Em linha com a tradição da Igreja, o discípulo amado é o apóstolo João, o primeiro a dar o passo da fé quando constatou o túmulo vazio – “Viu e creu” (Jo 20, 1-9).
Segundo a tradição, João foi o único dos Doze apóstolos poupado da coroa do martírio. Ele faleceu de causas naturais em idade avançada (94 anos), na cidade de Éfeso, situada na atual Turquia. Nesta mesma cidade encontramos a “Casa da Virgem Maria”, onde uma tradição afirma que João, Bispo de Éfeso, cuidou da Mãe do Senhor até a sua Dormição (Jo 19, 26-27).
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